24.7.08

BELEZA É FUNDAMENTAL?

Da boca para fora, Vinicius de Moraes não titubeava: "Beleza é fundamental". Ele próprio, no entanto, tinha barriguinha aparente, fumava até amarelar os dentes e conseguia ser ao mesmo tempo meio careca e descabelado. Nem por isso o poetinha sofreu com falta de pretendentes. Vinicius é um bom exemplo de como são duvidosos os juízos sobre a beleza. Melhor pensar direito antes de adotá-los como verdade absoluta. Ou antes de sair perseguindo as formas de uma garota de Ipanema.

É verdade que nunca a imagem foi tão privilegiada, mas isso não quer dizer que sejamos reféns dos padrões dominantes de beleza. Primeiro, é preciso entender como esses padrões são criados. Sim, criados. Os lábios e, ah, as curvas da Gisele Bündchen podem parecer universais, mas nossa admiração por sua figura magricela é um traço cultural. Em segundo lugar, beleza não é só aparência física. Pesquisas mostram que atitudes bacanas e traços positivos de personalidade, como bom humor, fazem com que as pessoas sejam percebidas como mais bonitas. Quem está ao seu redor passa a misturar as qualidades, borrando as fronteiras entre os atributos estéticos e os de personalidade. E isso não é conversa de auto-ajuda para os feiosos. Essa confusão de sentidos, que faz o risonho parecer bonito, tem nome científico: chama-se perda da objetividade.

O melhor de tudo é que essa beleza expandida, que inclui o número de bons-dias que você dá e outros quesitos, pode ser cultivada. E não estamos falando de cumprir pena na academia de ginástica. A idéia é: ressalte o melhor que você tem por dentro e fique melhor por fora. "Você não precisa ser lindo para ser bonito", afirma o cantor Wando, uma autoridade em matéria de beleza interior. Malhar a auto-estima, anabolizar a confiança e esculpir a autenticidade são tratamentos de beleza. Como costuma dizer a publicidade de cosméticos, "todos vão notar". Não há um jeito certo de ser bonito, nem um jeito errado. Cada um encontra sua beleza.

Padrão universal
Falando assim, parece simples ser bonito. E é. Basta procurar os parâmetros do que é belo no lugar certo, ou seja, em você. Se deixar que os outros decidam isso, vai morrer esperando, porque a discussão sobre o que é beleza começou há séculos e não vai acabar nunca. Começa com os filósofos gregos, para quem a beleza estava ligada à virtude moral, o que, bem grosso modo, quer dizer o seguinte: se você é bonita, tem um narizinho arrebitado e aqueles olhos de que eu gosto tanto, provavelmente é também honesta, fiel e mais uma porção de boas coisas. A beleza estava no objeto. Só no século 18 foram perceber o óbvio: a beleza está nos olhos de quem vê. De fato, é fácil constatar isso: as madonas que pareciam lindas aos olhos dos pintores renascentistas são rechonchudas demais para os padrões anoréxicos da moda atual. Para quem não agüenta ver uma sueca ou um norueguês sem suspirar, saiba que os navegadores europeus assustavam muita gente. Para nativos da América, África e Ásia que nunca tinham visto europeus, eles pareciam fantasmas, com suas peles e cabelos claros.
Mas quem matou a charada foi o filósofo alemão Hegel, que disse, no século 19, que o prazer com o belo é um deleite narcísico. Em outras palavras: admiramos aquilo que é o reflexo de nós mesmos. "Em cada época, o que destoa do padrão vigente é considerado incômodo, estranho, feio", diz Charles Feitosa, doutor em filosofia que pesquisa a estética do feio e autor do livro Explicando a Filosofia com Arte. "Aprender a relativizar o conceito de beleza é aprender a lidar com o outro, com o diferente", diz.

Encontre sua beleza
Comece por não se deixar levar só pela aparência. Explicando melhor: contrariando a primeira impressão, os atributos unicamente estéticos não são o principal quesito usado pelas pessoas para avaliar as outras. Pesquisa em 37 países sobre o que homens e mulheres consideravam mais importante na hora de escolher o parceiro amoroso deu que, para os homens, a boa aparência é o décimo quesito, atrás de estabilidade emocional, inteligência e sociabilidade, por exemplo. Entre as mulheres, ficou em 13º, ultrapassada por elegância, ambição e boa perspectiva financeira.
Mesmo em carreiras em que o visual conta muito, a beleza está longe de ser o único critério de avaliação. "A maioria dos modelos e artistas sofre demais para se adequar a um padrão estabelecido", diz o modelo Paulo Zulu. "Mas o visual pode ser o cartão de entrada e também o cartão de saída. O que fica é o caráter." Para os repórteres e apresentadores de televisão, por exemplo, simpatia, naturalidade e, sobretudo, credibilidade são atributos até mais importantes do que um rosto bonito. "Há casos de gente que desponta usando apenas a aparência, mas esses acabam sendo sucessos passageiros", afirma Luciana Lancellotti, repórter da Rede Record - uma profissão que requer boa apresentação. "Não adianta nada ser maravilhoso e não criar uma relação de proximidade com o espectador." O cantor Wando diz que há espaço de sobra para artistas como ele. "Não sou lindo. Sou um tipo latino, que se bobear fica meio gordinho. Meu forte é a comunicação, e é isso que faz a beleza da gente ficar grande."
Na busca de sua autêntica beleza, você pode até concluir que vale a pena tentar se aproximar do padrão estético dominante. Isso de fato tornará você mais feliz? A maior parte dos especialistas não vê nada de errado em caprichar no visual, desde que essa aposta não se transforme em algo doentio. "A preocupação com a aparência física é saudável, é uma afirmação da vida. O que não podemos é exagerar, supervalorizar o corpo e esquecer todo o resto", afirma o filósofo Charles Feitosa. É fundamental perceber que há valores mais nobres em jogo, especialmente a sua felicidade. E, nesse ponto, Vinicius de Moraes é incontestável: é melhor ser alegre que ser triste.



(Texto recebido da amiga Gláucea, por e-mail. Autor não identificado)

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